Acordo com o barulho de moto-serra na rua silenciosa onde moro. É a prefeitura podando árvores. Não sei se vão cortar o gigante frondoso que
vive na nossa calçada. Corro para falar com o responsável, um rapaz simpático
que emana competência, desses que você escolheria para genro ou gerente de sua
empresa. Ele diz, e mostra nos papéis em
suas mãos, que a minha árvore não está na relação das que serão podadas.
Eu argumento que precisava tirar uns galhos que se projetam sobre o
telhado e entopem as calhas com suas folhas.
Ele vacila, olha a folhagem no alto com autoridade, olha para os lados e
resume em voz baixa que, se eu der um agrado para o funcionário da moto-serra, fica tudo resolvido.
A proposta não me surpreende. Sou brasileiro e acostumado a situações como essa. Somos um país e uma sociedade que vivemos de pequenos agrados. Somos um mundo e uma espécie que precisamos de agrados. Mas, idealmente, essas carícias não deveriam constar em nossas relações profissionais e muito menos nos serviços públicos. Mas é justamente aí que elas mostram a sua face mais daninha.
A proposta não me surpreende. Sou brasileiro e acostumado a situações como essa. Somos um país e uma sociedade que vivemos de pequenos agrados. Somos um mundo e uma espécie que precisamos de agrados. Mas, idealmente, essas carícias não deveriam constar em nossas relações profissionais e muito menos nos serviços públicos. Mas é justamente aí que elas mostram a sua face mais daninha.
A propina é fato
tão corriqueiro em nosso país, quanto o samba e o futebol. Quem diz que nunca deu alguma ajudinha para
uma caixinha de natal em troca de um favor talvez não tenha boa memória. Não passa pela cabeça da maioria das pessoas
que esses pequenos delitos possam denotar desonestidade, passam simplesmente como uma
troca de favores.
Minha relutância em participar desses consensos sociais me torna um
estranho, já não bastasse o fato ser um apreciador moderado tanto de samba
quanto de futebol.
A existência de um fiscal na rua olhando o
trabalho da rapaziada ainda me faz passar o constrangimento de ter que
disfarçar o repasse nervoso para o ex-genro e ex-gerente de minha empresa.
Não aceitar as regras desse jogo, no entanto, me tomaria um tempo enorme
ou, pior, um serviço feito de má vontade com riscos para o meu telhado, o meu
jardim e a inimizade de uma turma parruda armada de moto-serra.
Melhor não arriscar.
Dou
uma olhada no mapa astrológico da Terra de Santa Cruz, procurando possíveis
explicações para esse hábito que emerge do nosso passado português monárquico e
do paternalismo agrário que talvez sejam as chaves para entender a corrupção
endêmica em que vivemos.
Não entendo nada de astrologia mundial, mas penso que a notória posição
de destaque do Brasil no ranking dos países mais corruptos do mundo deva constar de alguma forma no nosso grito de independência.
Desconfio logo de Vênus conjunto à cauda
próximo à cúspide da VII, que poderia ser
interpretada como uma necessidade descalibrada e crônica de agradar e de ser
agradado, reforçada pela generosidade leonina.
Esse Vênus poderia explicar, também, a prática do nepotismo, que
consegue burlar todas as tentativas de coerção tanto legislativas quanto penais.
O Sol, dispositor de Vênus, abre os cofres
encostando no ângulo da VIII e fazendo trígono com Saturno paternal e agrário
em touro na III, casa de relacionamentos regida por marte culminante em
escorpião. É importante observar que o trígono sol-saturno é o único aspecto
que o sol faz a um planeta no mapa.
O berço esplêndido da conjunção
lua júpiter na IV (em gêmeos) também pode apontar para uma idéia de fartura,
complacência e indulgência e parece uma boa tradução para o “Quem não chora não
mama”, tão brasileiro quanto a caipirinha.
Parei por aí minha incursão nos astros de sete de setembro de 1822 e
tive o atrevimento de comentar essas considerações com minha mestra, que é uma
autoridade em astrologia mundial.
As aulas que tive com ela, até hoje, foram apenas de astrologia psicológica.
As aulas que tive com ela, até hoje, foram apenas de astrologia psicológica.
Minhas
elucubrações sobre o jeitinho astrológico brasileiro, segundo minha mestra,
precisavam de acréscimos.
O responsável pela corrupção no nível das esferas de governo é Plutão na
II quadrando urano/netuno na XI. Esta seria a cara dos ratões engravatados que
manobram em grande escala em prejuízo do dinheiro e do interesse público. Turma educada e bem relacionada que tem vaga
garantida nas brasas conforme o mérito de cada um.
Ainda segundo minha professora, a casa IV pode estar relacionada aos
agrados no varejo, sim, mas a VII, não, pois esta regeria nossa diplomacia nos
contatos internacionais.
É irônico pensar que temos em nosso mapa um
país que simbolicamente abana a cauda para o mundo. Isso já não é astrologia, é
claro, mas uma metáfora que dá o que pensar e para a qual sobram referências
históricas de subserviência e de uma política internacional muitas vezes
polêmica.
Voltando ao mapa observei, depois,
que o regente da IV quem é? E o dispositor de saturno? E o regente da IX?
A mesma afetada Afrodite na VII.
A moça é uma dominante, pois, além de ser o planeta
mais próximo de um ângulo, ainda é dispositor e regente de casas e planetas
importantes. E, petulante, ainda manda uma banana
para o meio céu e o ascendente.
Dou como encerrada a minha curiosidade sobre o mapa desse povo heróico e
bravo retumbante.
Seja como for, agora, quando passo pela calçada e vejo o telhado da
minha casa desimpedido de galhos, penso no berço esplêndido lua/júpiter em
gêmeos, um símbolo perfeito para essa desonestidade infantil, inocente de
culpa, e, quem sabe, perdoada por Deus.
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