Reflexões sobre esse conhecimento estranho e fascinante que faz com que, ainda hoje, 25 anos depois dos primeiros livros e primeiros mapas, eu me surpreenda quando encontro, em um mapa, o retrato simbólico exato de uma vida real.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O jeitinho astrológico brasileiro




                                                          Acordo com o barulho de moto-serra na rua silenciosa onde moro.  É a prefeitura podando árvores.  Não sei se vão cortar o gigante frondoso que vive na nossa calçada. Corro para falar com o responsável, um rapaz simpático que emana competência, desses que você escolheria para genro ou gerente de sua empresa.  Ele diz, e mostra nos papéis em suas mãos, que a minha árvore não está na relação das que serão podadas.
                                                          Eu argumento que precisava tirar uns galhos que se projetam sobre o telhado e entopem as calhas com suas folhas.  Ele vacila, olha a folhagem no alto com autoridade, olha para os lados e resume em voz baixa que, se eu der um agrado para o funcionário da moto-serra,  fica tudo resolvido.
                                                         A proposta não me surpreende.  Sou brasileiro e acostumado a situações como essa.  Somos um país e uma sociedade que vivemos de pequenos agrados. Somos um mundo e uma espécie que precisamos de agrados. Mas, idealmente, essas carícias não deveriam constar em nossas relações profissionais e muito menos nos serviços públicos. Mas é justamente aí que elas mostram a sua face mais daninha.
                                                          A propina é fato tão corriqueiro em nosso país, quanto o samba e o futebol.  Quem diz que nunca deu alguma ajudinha para uma caixinha de natal em troca de um favor talvez não tenha boa memória.  Não passa pela cabeça da maioria das pessoas que esses pequenos delitos possam denotar desonestidade, passam simplesmente como uma troca de favores.
                                                          Minha relutância em participar desses consensos sociais me torna um estranho, já não bastasse o fato ser um apreciador moderado tanto de samba quanto de futebol.
                                                          A existência de um fiscal na rua olhando o trabalho da rapaziada ainda me faz passar o constrangimento de ter que disfarçar o repasse nervoso para o ex-genro e ex-gerente de minha empresa.
                                                          Não aceitar as regras desse jogo, no entanto, me tomaria um tempo enorme ou, pior, um serviço feito de má vontade com riscos para o meu telhado, o meu jardim e a inimizade de uma turma parruda armada de moto-serra.
                                                          Melhor não arriscar.
                                                          Dou uma olhada no mapa astrológico da Terra de Santa Cruz, procurando possíveis explicações para esse hábito que emerge do nosso passado português monárquico e do paternalismo agrário que talvez sejam as chaves para entender a corrupção endêmica em que vivemos.
                                                          Não entendo nada de astrologia mundial, mas penso que a notória posição de destaque do Brasil no ranking dos países mais corruptos do mundo deva constar de alguma forma no nosso grito de independência.
                                                          Desconfio logo de Vênus conjunto à cauda próximo à cúspide da VII,  que poderia ser interpretada como uma necessidade descalibrada e crônica de agradar e de ser agradado, reforçada pela generosidade leonina.  Esse Vênus poderia explicar, também, a prática do nepotismo, que consegue burlar todas as tentativas de coerção tanto legislativas quanto penais.
        
                                                          O Sol, dispositor de Vênus, abre os cofres encostando no ângulo da VIII e fazendo trígono com Saturno paternal e agrário em touro na III, casa de relacionamentos regida por marte culminante em escorpião. É importante observar que o trígono sol-saturno é o único aspecto que o sol faz a um planeta no mapa.
                                                          O berço esplêndido da conjunção lua júpiter na IV (em gêmeos) também pode apontar para uma idéia de fartura, complacência e indulgência e parece uma boa tradução para o “Quem não chora não mama”, tão brasileiro quanto a caipirinha.
                                                          Parei por aí minha incursão nos astros de sete de setembro de 1822 e tive o atrevimento de comentar essas considerações com minha mestra, que é uma autoridade em astrologia mundial.
                                                          As aulas que tive com ela, até hoje, foram apenas de astrologia psicológica.
                                               Minhas elucubrações sobre o jeitinho astrológico brasileiro, segundo minha mestra, precisavam de acréscimos. 
                                               O responsável pela corrupção no nível das esferas de governo é Plutão na II quadrando urano/netuno na XI. Esta seria a cara dos ratões engravatados que manobram em grande escala em prejuízo do dinheiro e do interesse público.  Turma educada e bem relacionada que tem vaga garantida nas brasas conforme o mérito de cada um.
                                                          Ainda segundo minha professora, a casa IV pode estar relacionada aos agrados no varejo, sim, mas a VII, não, pois esta regeria nossa diplomacia nos contatos internacionais.  
                                                          É irônico pensar que temos em nosso mapa um país que simbolicamente abana a cauda para o mundo. Isso já não é astrologia, é claro, mas uma metáfora que dá o que pensar e para a qual sobram referências históricas de subserviência e de uma política internacional muitas vezes polêmica. 
                                                          Voltando ao mapa observei, depois, que o regente da IV quem é? E o dispositor de saturno? E o regente da IX?
                                                          A mesma afetada Afrodite na VII.
                                                          A moça é uma dominante, pois, além de ser o planeta mais próximo de um ângulo, ainda é dispositor e regente de casas e planetas importantes.  E, petulante, ainda manda uma banana para o meio céu e o ascendente.
                                                          Dou como encerrada a minha curiosidade sobre o mapa desse povo heróico e bravo retumbante.
                                                           Seja como for, agora, quando passo pela calçada e vejo o telhado da minha casa desimpedido de galhos, penso no berço esplêndido lua/júpiter em gêmeos, um símbolo perfeito para essa desonestidade infantil, inocente de culpa, e, quem sabe, perdoada por Deus.


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